Por Bruna Simões e Mafalda Inácio / Mestrado Comunicação-Novos Media

No coração da Baixa de Coimbra, o Colégio de Nossa Senhora da Graça emerge como um símbolo histórico da cidade, constituindo um dos únicos colégios que ainda se mantém em bom estado de conservação. Do seu interior, são várias as sonoridades que captam a atenção de quem caminha pela Rua da Sofia, porém a verdadeira magia acontece para lá dos claustros do colégio, longe do olhar de quem, num ritmo apressado, vagueia pela baixa citadina.
As paredes quinhentistas envolvem o pequeno espaço verde que se abre no centro dos claustros, convidando a luz solar a iluminar o local. Consumida pelo tempo, a escadaria do Colégio de Nossa Senhora da Graça guia os apaixonados pela tradição musical conimbricense até à atual sede da Associação Cultural Museu da Música de Coimbra (MUSMUSCBR).
MUSMUSCBR: Guardiã da Memória Musical Conimbricense
A cada degrau, o som da cidade dissipa-se gradualmente, sendo substituído por um ambiente onde o tempo parece abrandar. Ainda na escadaria, ouvem-se vozes que se cruzam em conversas, o raspar da lixa e o bater de ferramentas. O cheiro do verniz e da madeira recém-trabalhada denuncia que, ali, a música começa muito antes de ser tocada.

Ao entrar na sede da associação, os visitantes são recebidos por um museu que foge aos moldes tradicionais. Longe das vitrines e da distância entre o objeto e o observador, os instrumentos expostos convivem com o quotidiano da MUSMUSCBR. O espaço organiza-se num percurso quase labiríntico, que guia os curiosos até à oficina onde tudo acontece. Violas, guitarras e bandolins contam a história da música portuguesa através das suas formas, materiais e marcas do tempo. Entre elas, destacam-se instrumentos emblemáticos, como a Viola da Terra, natural da Região Autónoma dos Açores, e a Guitarra Portuguesa, símbolo máximo da tradição musical nacional.




Na oficina – o verdadeiro coração da MUSMUSCBR – o museu ganha vida. Distribuídas por várias bancadas, encontram-se ferramentas de diferentes épocas e usos, testemunhos de um saber artesanal transmitido ao longo de gerações. Ao fundo da sala de construção, Eduardo Loio, presidente da Associação Cultural Museu da Música de Coimbra, veste a sua bata branca, dotada de um pequeno broche em forma de guitarra, e organiza o espaço para mais uma aula.
“O nosso principal objetivo é construir um museu, que é talvez a valência mais difícil, com o intuito de dar continuidade à música popular de Coimbra”.
Eduardo Loio
Dando uso às mãos para expressar a sua linha de raciocínio, Eduardo Loio acrescenta que a presença da MUSMUSCBR na luta pela preservação da herança cultural conimbricense reflete-se nas iniciativas que promove: “temos uma escola de construção de instrumentos musicais onde ensinamos técnicas tradicionais portuguesas”, diz abrindo os braços como quem mostra o que está ao seu redor e procede, “temos um laboratório de conservação e restauração de instrumentos, bem como o projeto Da Oficina Ao Palco, que é direcionado ao primeiro ciclo do ensino básico e aos lares de terceira idade”, no qual uma equipa de músicos apresenta, a miúdos e graúdos, os instrumentos da região de Coimbra, bem como os seus repertórios.

De mãos atrás das costas, Eduardo Loio começa a vaguear pela sala de construção, contornando as várias bancadas que compõem a oficina, como que em busca de compreender se algum dos alunos precisa da sua orientação ou auxílio. Pelas paredes, inúmeros instrumentos, de todas as origens e estilos musicais, inspiram os interessados pela tradição musical. “Eu acredito que é muito importante conhecermos as nossas tradições, embora haja tradições que não possamos fazer perdurar”, começa por explicar o presidente da MUSMUSCBR. Leva a mão ao rosto e ajeita os óculos, não tardando a dar continuidade ao seu argumento: “É urgente selecionar que tipo de tradições nos fortalece enquanto indivíduos, por exemplo, contrariamente à música, a violência doméstica é uma tradição portuguesa que não deve continuar”. Citando Gustav Mahler, Eduardo Loio conta que “depois de fazer uma seleção do que realmente é importante, devemos zelar pela sobrevivência das tradições”, não através de um culto às cinzas, mas por meio da preservação do fogo.




Em cada bancada, mãos concentradas moldam a madeira com precisão, num processo que exige paciência, técnica e escuta ativa do material. Aqui, a construção e a restauração de instrumentos não seguem lógicas industriais, mas antes um ritmo próprio, ditado pela natureza da madeira e pela curiosidade de quem a trabalha. A Eduardo Loio, junta-se Germana do Vale, no apoio aos alunos que, munidos de determinação, ambicionam construir ou restaurar os seus próprios cordofones.
Os alunos, dotados de diferentes trajetos pessoais e profissionais, espalham-se pelos lugares disponíveis na oficina, todos eles voltados para as janelas, que não falham em iluminar os protótipos em construção. Ao passo que alguns chegam movidos pela curiosidade, outros chegam à MUSMUSCBR com o desejo de aprofundar uma ligação, já existente, à música tradicional. Embora as faixas etárias variem, sendo possível encontrar, jovens, adultos e idosos, todos são chefiados por um interesse comum: compreender o instrumento para lá do som que produz. A aprendizagem acontece num ambiente colaborativo e quase familiar, onde a observação e a troca de conhecimentos são tão importantes quanto a prática manual.
Sedeada no Colégio de Nossa Senhora da Graça desde 2020, aquando da eclosão da pandemia de Covid-19, a Associação Cultural Museu da Música de Coimbra rege-se pela vontade de preservar e valorizar a herança musical conimbricense. “Se olharmos para o fado ou para a canção de Coimbra é evidente que é valorizado e explorado pela cultura turística, mas a música de Coimbra não se resume a isso”, defende Eduardo Loio, com um brilho no olhar que evidencia, não só o seu interesse, mas também a sua preocupação pela temática. Doutorando em Património Cultural e Museologia, na Universidade de Coimbra, o presidente da MUSMUSCBR abre um sorriso sincero e deixa explícita a determinação de tornar a associação num polo de estudo e recuperação da tradição musical conimbricense.
Aos olhos de Eduardo Loio, o pontapé de saída para que este propósito seja alcançado reside na restituição do Guitarrinho de Coimbra, bem como da Viola Toeira ao panorama artístico regional. São instrumentos que “estamos progressivamente a tirar do desconhecimento”, remata o presidente da MUSMUSCBR.

Além do Fado: Os Verdes Anos da Música de Coimbra

Apesar de Coimbra não ter permanecido imune às transformações impostas pelo tempo, a música afirmou-se, intemporalmente, como um elemento estruturante da sua identidade cultural, tendo o Fado de Coimbra ocupado um papel central na sua valorização e internacionalização. A Canção de Coimbra, cujas origens remontam às tradições trovadorescas medievais, afirmou-se progressivamente a partir do século XIX, no contexto académico.
Ao longo do século XX, especialmente entre as décadas de 1940 e 1960, este estilo musical viveu um período de elevada projeção nacional e internacional. O legado da Canção de Coimbra acabou por ser formalmente reconhecido em 2013 como Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Até hoje, o Fado de Coimbra emerge no panorama musical conimbricense como um símbolo vivo da memória e da tradição da cidade, que eternizou Carlos Paredes, Augusto Hilário, António Menano, Edmundo Bettencourt, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Góis, Machado Soares, António Bernardino e Carlos Seixas.
Embora a Canção de Coimbra ocupe um papel central no cenário artístico conimbricense, Eduardo Loio defende que a herança musical da cidade vai muito além deste género, apresentando uma diversidade de manifestações que espelham a complexidade histórica, cultural e estética de Coimbra. Esta cidade “foi, durante muito tempo, um centro cultural, onde confluíam pessoas de vários pontos do Império Português”, salienta Eduardo Loio, recuando ao passado colonial nacional para esclarecer a unicidade do repertório musical conimbricense.
Segundo o académico, embora o Brasil tenha desempenhado um papel fulcral no desenvolvimento e amadurecimento do trajeto artístico de Coimbra, “as manifestações musicais, de todo o país, convergiam na cidade”, levando-a a desenvolver expressões artísticas singulares: “podemos falar da canção de Coimbra, do teatro de Coimbra, mas também da música tradicional popular, dos futricas e das tricanas”, acrescenta o presidente da MUSMUSCBR, emoldurando o rosto entre as mãos enquanto fala.
Em Coimbra, as expressões “tricanas” e “futricas” são utilizadas para designar figuras representativas da vivência tradicional e popular da cidade, especialmente no final do século XIX e início do século XX. A denominação “tricana” era utilizada para designar as jovens mulheres trabalhadoras da Baixa de Coimbra, enquanto “futrica” era o termo empregue pela comunidade académica para se referir aos habitantes locais que não estavam associados à academia.

Para Eduardo Loio, a vastidão do repertório musical conimbricense é uma questão intelectual e não geográfica, muito influenciada pela “presença ativa dos estudantes da Universidade de Coimbra e da tradição académica”. Aos seus olhos, a música surge como um espelho da sociedade, capaz de refletir o contexto sociocultural, traduzindo a estética e as vivências de cada época e ajudando a construir a própria identidade cultural. O presidente da instituição esboça um sorriso e volta a recordar Coimbra, nos séculos XIX e XX: “Era um verdadeiro centro de confluência de pessoas com culturas diferentes ou provenientes de diversos meios socioculturais”.

A escapar às sonoridades tradicionais portuguesas, na década de 1990, o fenómeno rockabilly chegou a Coimbra, transformando, desde então, a cidade num polo de atração nacional para os entusiastas do rock dos anos 50. “Portanto, a música de Coimbra tem uma importância absoluta para a constituição da identidade coletiva regional”, aponta Eduardo Loio e prossegue, “o nosso papel, enquanto associação, é estudá-la e honrá-la”.
Mãos que (Re)Constroem História
Bien Irizarry

Os sons diversos que compõem o ambiente da oficina contrastam com a chuva intensa que se faz sentir no exterior e que embate drasticamente nas janelas. Ao fundo da sala de construção, na última bancada disponível, Bien Irizarry, proveniente dos Estados Unidos da América, mostra-se completamente imerso na arte de preservação e restauro instrumental. Com um protótipo de Guitarra Clássica Espanhola em mãos, o norte-americano conta que emigrou para Portugal em 2024, chefiado pela vontade de se reinventar enquanto artista, momento em que conheceu a Associação Cultural Museu da Música de Coimbra.
Bien respira fundo, enquanto observa atentamente o espaço que o envolve, e abre um sorriso caloroso: “Quando entrei na sede pela primeira vez, a única pessoa que cá estava era o professor Eduardo. A luz entrava pelas janelas e iluminava todos estes instrumentos, em diversos estados de construção e conservação (…) Acabei por me apaixonar por esta ambiência (…) e estou a adorar cada momento”.
Coloca duas tábuas de madeira sobre a mesa de luz e ajusta-as pacientemente, de modo a alinhar os esboços de Guitarra Clássica Espanhola nelas existentes. Logo de seguida, retira um lápis da bancada mais próxima e traça alguns rabiscos na madeira, como que em busca de aperfeiçoar as linhas inicialmente desenhadas. Após alguns minutos de silêncio e foco absoluto na sua tarefa, Bien Irizarry equipara a oficina da MUSMUSCBR a um local divino. Aos olhos de Bien Irizarry, a Associação Cultural Museu da Música de Coimbra “é uma fusão” de tudo o que estudou ao longo do seu percurso académico e profissional: “escultura, arquitetura e trabalho em madeira”.
“Esta escola é como uma igreja, foi aqui que encontrei o meu propósito, algo que procurei durante toda a minha vida”
Bien Irizarry

Bien arregaça as mangas da bata azul que tem vestida e confessa que o seu interesse e conhecimento pela música portuguesa foi crescendo com o passar do tempo. Os seus olhos arregalam e as suas sobrancelhas tornam-se mais expressivas, à medida que menciona a variedade de Guitarras Portuguesas existentes no panorama artístico nacional: “cada grande cidade, como Lisboa, Coimbra ou Porto, tem o seu design único”. “Considero isso muito interessante”, remata o norte-americano.
O sorriso de Bien não abandona o seu rosto nem por um instante. “Se me restarem apenas 10 anos neste planeta, quero aproveitar para fazer coisas verdadeiramente belas”, afirma o norte-americano à medida que passa as mãos pelas tábuas de madeira, como quem aprecia o trabalho realizado até ao momento. “Eu só quero fazer algumas guitarras bonitas antes que o meu tempo se esgote”, conclui com um brilho incessante no olhar, que reflete, não só a sua experiência, mas também o carinho pela preservação musical conimbricense.
Daniel Lagoa


Foi a curiosidade e inquietação tão própria de quem vive em Coimbra que conduziu Daniel Lagoa, de 21 anos, até à Associação Cultural Museu da Música de Coimbra. Estudante do Ensino Superior, o jovem já trazia no seu currículo a vivência da Tuna Mista da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra (Quantunna), onde aprendeu a respirar o espírito boémio conimbricense e a abraçar a paixão pela tradição musical da Cidade dos Estudantes.
Daniel Lagoa dá golpes certeiros na madeira com a lixa, de modo a afinar o Guitarrinho em construção e não tarda a explicar que, embora a sua ligação à música seja profunda, faltava-lhe compreender “o behind the scenes dos instrumentos”. Ao visitar a sede da MUSMUSCBR pela primeira vez, Daniel Lagoa conta que foi movido pelo desejo simples, quase ingénuo, de comprar um Guitarrinho. O rosto do jovem ilumina-se ao recordar o momento e, entre risos, explica que foi rapidamente convencido pelo professor Eduardo Loio a ir mais longe: “porque é que não fazes o teu próprio?”.
Para Daniel, este gesto mudou completamente a sua perspetiva sobre os instrumentos musicais: “não é só tocá-lo, também é fazê-lo, com carinho e atenção a todos os detalhes”. Completamente imerso no processo de construção, o jovem estudante confessa que a experiência lhe confere “uma perspetiva diferente do que são as coisas”. De repente, deixou de ser ouvinte para se tornar aprendiz de um ofício que atravessa gerações e encerra a alma da própria cidade.
Desde setembro de 2025, Daniel é uma presença assídua, apesar da dificuldade em conciliar os horários das aulas do mestrado em Química e as aulas de construção da MUSMUSCBR. O choque de horários com a universidade traz-lhe alguns problemas logísticos, mas nem isso o desanima. Pelo contrário, Daniel fala da sua evolução com um brilho no olhar, como se este processo fosse, para si, uma porta aberta para um mundo novo, onde cada corda e cada pedaço de madeira moldado revela segredos sobre Coimbra que nem todos têm o privilégio de escutar.
“Estou a adorar descobrir o que é realmente um instrumento”, garante Daniel, deixando explícito que o trabalho desenvolvido na oficina está a transformá-lo, não apenas como músico, mas como pessoa. Agora, Daniel percebe que a música conimbricense não se aprende apenas com partituras, aprende-se com paciência, com mãos que ganham calos, com histórias partilhadas e com a humildade de quem sabe que carrega, nas cordas do Guitarrinho, um fragmento identitário da cidade. Suspira, como quem interioriza a ambiência que o envolve, e conclui que construir um Guitarrinho é também uma forma de se aproximar de Coimbra, das suas tradições e de tudo o que nela continua a ecoar, século após século.
Hugo Paiva de Carvalho

No coração da sala, onde o burburinho cresce e o convívio se entrelaça com o som da madeira a ser trabalhada, destaca-se a presença serena de Hugo Paiva de Carvalho. Com 38 anos, o professor do Ensino Superior, investigador e músico move-se com naturalidade entre o rigor académico e a sensibilidade artística. Membro da Associação Cultural Museu da Música de Coimbra desde outubro de 2024, Hugo encontrou na aprendizagem da construção de cordofones um novo espaço de expressão, tão íntimo quanto revelador. Paralelamente, é também ali que leciona aulas de Guitarra de Coimbra, instrumento que conhece por fora, e neste momento, também por dentro, tanto no contexto musical como na essência do material.


Enquanto fala, Hugo acompanha as palavras com as mãos, como se nelas já estivesse inscrita a memória do som. Suspira, sorri, e admite que este percurso representa uma forma de reinvenção pessoal. A oficina artesanal surge-lhe como um refúgio, um momento suspenso no tempo, que descreve, em poucas palavras, como terapêutico. Entre lixas, madeiras e silêncio, encontra um equilíbrio raro entre o pensamento e a criação artística, num diálogo constante entre a cabeça e o coração.
De lixa em punho, prestes a regressar ao trabalho sobre a Guitarra de Coimbra que está a construir, partilha um dos seus grandes propósitos dentro da associação: reacender o interesse da sociedade pelo Guitarrinho de Coimbra. Para Hugo, devolver este cordofone ao panorama musical conimbricense é também devolver-lhe voz e lugar na história sonora da cidade.
Com mais de duas décadas de experiência enquanto músico, reconhece que o caminho entre o artista e o construtor nem sempre é linear, visto que “muitas vezes, o som que procuramos enquanto músicos não é fácil de encontrar enquanto construtores”, uma inquietação que tem vindo a explorar ao longo do seu percurso na MUSMUSCBR. Neste cruzamento entre o saber, a prática e a tradição, Hugo Paiva de Carvalho afirma-se como um guardião atento da música de Coimbra, alguém que acredita que o futuro da sonoridade conimbricense passa, inevitavelmente, pelo respeito profundo pelas suas raízes e pelo gesto paciente de quem constrói, nota a nota, o som da cidade.
Gracinda Matos

Gracinda Matos tem 78 anos e vive em Coimbra desde os 13 anos. Embora não seja natural da cidade, é nela que construiu grande parte da sua vida e onde encontrou, ao longo dos anos, múltiplas formas de pertença. Foi através de um amigo que chegou à Associação Cultural Museu da Música de Coimbra, espaço que frequenta desde 2023. Descrevendo-se como uma pessoa de curiosidade insaciável, Gracinda gosta de estar sempre a aprender, pratica ioga, frequenta aulas de inglês e integra um coro de canto, num percurso marcado pela vontade constante de descobrir e experimentar. “Parar é morrer”, diz esboçando um sorriso largo.
Na associação, encontrou um ambiente “ótimo”, onde se sente acolhida e motivada. Amiga e vizinha de Manuel Pina, partilha com ele não só a proximidade, mas também o gosto pelo trabalho artesanal e pelo convívio que se cria em torno da madeira, das ferramentas e da música. Entre a construção e o restauro dos instrumentos, Gracinda diz gostar de ambos “desde que seja novidade”, remata entre risos. Para si, aprender algo novo é sempre motivo de entusiasmo.


Entre a construção e o restauro, Gracinda destaca as diferenças técnicas, explicando que, embora o Cavaquinho siga uma lógica semelhante à dos outros instrumentos, a Guitarra exige mais trabalho e um domínio mais alargado de técnicas. Ainda assim, é precisamente esse desafio que a motiva. A experiência, garante, aproximou-a ainda mais da música de Coimbra, sobretudo por estar agora a aprender a tocar e a compreender melhor os instrumentos que fazem parte da identidade sonora da cidade.
O percurso na associação ganhou um significado ainda mais profundo em 2024, momento em que enfrentou um problema de saúde que a deixou bastante fragilizada. Nesse período, sentiu de forma intensa o apoio, a amizade e a empatia dos colegas, que a ajudaram a atravessar o momento difícil. Para Gracinda, este espírito de entreajuda é tão importante quanto o trabalho artesanal em si. Entre instrumentos que ganham força e laços que se fortalecem, a sua presença confirma que a música conimbricense também se constrói com mãos experientes, curiosidade permanente e uma profunda humanidade partilhada.
Manuel Pina

Manuel Pina, de 69 anos, carrega em si o ritmo sereno de quem sempre pertenceu a Coimbra. Há cerca de três anos, Manuel aposentou-se e através do incentivo de um amigo que já frequentava a escola, decidiu cruzar a sua rotina com a da Associação Cultural Museu da Música de Coimbra. O que começou como simples curiosidade depressa se transformou num compromisso com a madeira, o som e o tempo. Desde então, construiu dois instrumentos e encontra-se agora no processo de concluir o terceiro, dividindo-se também pela recuperação de uma viola, num percurso feito de paciência e descoberta.

Inicialmente, Manuel aproximou-se da associação apenas com o intuito de aprender a construção do instrumento. No entanto, foi a própria proposta da escola que o desafiou a entrar também no universo do restauro, alargando horizontes e aprofundando a sua ligação ao património musical. Hoje, entre instrumentos que renascem e outros que ganham voz pela primeira vez, Manuel Pina faz parte desse fio invisível que liga Coimbra ao seu passado sonoro contribuindo, com mãos experientes e olhar atento, para que a música conimbricense continue a ecoar no presente.
Na oficina, Manuel move-se entre dois mundos distintos, o da construção e o da restauração. Na construção, explica que “tudo começa de raiz”, da madeira ainda sem voz até ao instrumento final, pronto a ganhar vida. É um processo necessariamente limitado em quantidade, mas profundo em significado, visto que permite acompanhar cada etapa e, no final, ver materializado o fruto do seu trabalho. Já a restauração apresenta-se como um desafio completamente diferente. Chegam-lhe instrumentos profundamente danificados, marcados pelo uso e pelo abandono, exigindo atenção e respeito pela sua história. Ver estes objetos recuperarem forma, som e dignidade é, para Manuel, uma gratificação difícil de traduzir em palavras.


Este sentimento de recompensa atravessa todo o seu percurso na MUSMUSCBR: seja ao concluir um restauro bem-sucedido ou ao terminar uma construção, há sempre a satisfação de ver o trabalho bem feito. Com base na sua experiência pessoal, Manuel destaca a construção de uma viola, instrumento que hoje não só toca, mas que o levou também a iniciar a aprendizagem musical, numa prova de que nunca é tarde para acrescentar novas camadas ao próprio caminho.
Sobre a experiência na oficina, Manuel descreve-a como “bastante interessante”, sublinhando o bom ambiente que se vive entre colegas e professores. Reconhece que as instalações não são ideais, uma limitação que considera transversal, mas que não ofusca a qualidade dos trabalhos desenvolvidos no espaço. Destaca, com apreço, o acompanhamento dos colegas e do responsável pela oficina, afirmando-se extremamente satisfeito com a resposta que o mesmo tem dado.
Aviram Nahon

Aviram Nahon tem 43 anos e traz consigo um percurso que atravessa fronteiras e culturas. Nascido em Israel, vive em Portugal há cerca de dois anos e foi em Coimbra, cidade que hoje habita, que encontrou um novo ponto de aprendizagem. A aproximação à Associação Cultural Museu da Música de Coimbra nasceu de um desejo claro: aprender a construir guitarras. A coincidência de viver na região acabou por o conduzir a este espaço, onde o tempo parece correr de outra forma, ao ritmo da madeira e do som que lentamente se desenha.

Membro da MUSMUSCBR desde 2025, Aviram encontra-se atualmente a construir uma Guitarra Barroca, depois de já ter concluído uma Guitarra Clássica. A escolha deste instrumento não foi casual, pelo contrário, foi pensada ao pormenor: o israelita explica que se trata de um cordofone dispendioso e pouco acessível às suas condições financeiras, pelo que viu na construção do seu próprio instrumento uma forma de ultrapassar esta barreira, aliando o saber artesanal ao desejo futuro de o vir tocar.
Para além da construção, Aviram dedica-se, igualmente, ao restauro de instrumentos clássicos, aprofundando o contacto com técnicas tradicionais e com a matéria viva que sustenta a música. Descreve a sua experiência na associação como “incrível”, sublinhando a quantidade de conhecimento partilhado e a forte presença de tradição. É neste ambiente que sente estar constantemente a aprender, beneficiando de um saber acumulado que se transmite mais pelo gesto do que pela palavra.
Embora já tenha ouvido e conheça a música conimbricense, Aviram admite que “ainda não me sinto totalmente familiarizado com ela”. No entanto, acredita que o processo de construção dos instrumentos o tem aproximado das tradições musicais de Coimbra. A forma como se constroem e reparam os instrumentos na associação, com ferramentas antigas, moldes tradicionais e métodos, segundo Aviram, “old style”, revela-lhe uma ligação profunda ao passado e à identidade sonora da cidade.
Para o israelita, a Associação Cultural Museu da Música de Coimbra distingue-se precisamente por essa abordagem clássica e singular, onde tudo, desde as ferramentas aos instrumentos finais, reflete um respeito rigoroso pela tradição. Neste espaço, entre madeira moldada à mão e sons ainda por nascer, vão-se construindo não só instrumentos, mas também ligações cada vez mais íntimas à música de Coimbra, uma aprendizagem silenciosa, feita de escuta, tempo e tradição partilhada.
Afinar o Amanhã: o que reserva o futuro?
Pensar no futuro da MUSMUSCBR é, para Eduardo Loio, um exercício que cruza inquietação e esperança. Num tempo cada vez mais dominado pela automatização e pela inteligência artificial, o responsável da associação manifesta o receio de que as tradições profundamente enraizadas, como a construção artesanal de instrumentos e a própria música conimbricense, possam perder espaço e sentido. Questiona-se sobre o que acontecerá quando quase tudo puder ser feito por máquinas, refletindo: “Como é que nós vamos ocupar o nosso tempo livre? Como é que se mantém a mente ativa, curiosa e verdadeiramente cativada? Sem nos dispersar do que é o essencial?“. Para Eduardo, este afastamento progressivo do fazer manual representa um risco real de desconexão com aquilo que é essencial.
Ainda assim, é precisamente nesse cenário que identifica uma das maiores forças da MUSMUSCBR. Mesmo num futuro, como refere, “altamente automatizado”, acredita que a associação continuará a ser um espaço que se constrói e se toca música com as próprias mãos, preservando não apenas técnicas antigas, mas também uma forma de estar no mundo. O trabalho manual, lento e exigente, surge como um “antídoto” à dispersão contemporânea, ajudando a centrar, novamente, o pensamento e a valorizar processos que exigem tempo, atenção e presença. Para Eduardo Loio, o facto de a construção de instrumentos ser um trabalho profundamente físico e artesanal é, paradoxalmente, uma das maiores garantias de futuro.
No entanto, os desafios concretos do presente impõem-se com peso. A dimensão financeira é apontada como a maior dificuldade enfrentada pela associação. Eduardo revela, ainda, “temos a existência de uma lista extensa de projetos por concretizar, muitos deles adiados por falta de tempo para preparar candidaturas adequadas ou por ausência de recursos financeiros”. Esta limitação condiciona o crescimento da MUSMUSCBR e dificulta a concretização de ideias que poderiam reforçar ainda mais a ligação entre Coimbra, a sua tradição musical e a comunidade.
A estas dificuldades soma-se o estado do próprio espaço físico da associação. O desgaste acumulado é visível e sentido no dia-a-dia, o frio que se faz sentir no inverno, as infiltrações que, por vezes, deixam entrar a chuva, e a necessidade constante de proteger instrumentos valiosos e trabalhos em curso. Eduardo recorda um episódio, dizendo: “Houve situações em que tivemos de correr e mover, à pressa, vários projetos de 20 mil euros para evitar que ficassem danificados, porque começou a chover”. Um gesto que ilustra bem a fragilidade das condições, mas também o cuidado e o compromisso com o património que ali se constrói.
Entre receios e resistência, entre limitações materiais e riqueza humana, o futuro da MUSMUSCBR desenha-se como um equilíbrio delicado. Num mundo cada vez mais acelerado e automatizado, a associação afirma-se como um espaço onde Coimbra continua a ser pensada, ouvida e construída à mão. Um lugar onde a música conimbricense não é apenas preservada, mas vivida, contrariando o esquecimento e reafirmando a importância do gesto humano na construção da memória coletiva.
(A)Cordas A Memória é uma reportagem multimédia centrada na preservação e continuidade da herança musical conimbricense. Tendo como objeto de estudo o papel da Associação Cultural Museu da Música de Coimbra, o presente trabalho procura analisar de que forma esta instituição contribui para a salvaguarda, valorização e divulgação do património musical da região, bem como para a transmissão intergeracional de saberes e práticas culturais. Além da vertente escrita, é ainda possível ouvir as histórias de quem integra a Associação Cultural Museu da Música de Coimbra e contribui, dia após dia, para a manutenção do legado musical conimbricense, no podcast narrativo (A)Cordas A Memória, já disponível no SoundCloud.
Mafalda Inácio é estudante do Mestrado em Comunicação-Novos Media da Escola Superior de Educação de Coimbra.
xxxx@esec.pt
